Gases Inalados e Exalados Pelo Corpo Humano

Uma Análise Técnica Atualizada Com Base Em NIOSH, OSHA, Fundacentro/MTE, IAEA E ICRP

A respiração humana é um processo fisiológico vital no qual ocorre a troca gasosa entre o ar ambiente e o sangue nos pulmões. Essa troca é a base da homeostase respiratória e suporta todas as atividades metabólicas do organismo. Em ambientes saudáveis, o padrão de gases inalados e exalados é bem conhecido; contudo, em ambientes ocupacionais com contaminantes, a fisiologia respiratória se torna crítica para avaliação de riscos à saúde.

Este artigo apresenta:

  • A composição típica de gases inalados e exalados;
  • A fisiologia envolvida nessa troca;
  • Referências técnicas atuais de NIOSH, OSHA e Fundacentro/MTE;
  • A relação com avaliação de exposições ocupacionais;
  • Implicações para proteção respiratória no trabalho.

A tabela abaixo representa a faixa de composição dos principais gases durante o processo normal de respiração em um ambiente não contaminado:

Composição Dos Gases Inalados E Exalados Pelo Corpo Humano

(Ambiente atmosférico normal, ao nível do mar)

Conversão utilizada:
1% = 10.000 ppm

Gás Ar Inalado (%)———- Ar Inalado (ppm)———- Ar Exalado (%)———- Ar Exalado (ppm)——-
Oxigênio (O₂) 20,94 % ≈ 209.400 ppm 17,0 % ≈ 170.000 ppm
Nitrogênio (N₂) 78,08 % ≈ 780.800 ppm 78,0 % ≈ 780.000 ppm
Dióxido de Carbono (CO₂) 0,04 % ≈ 400 ppm 4,0 % ≈ 40.000 ppm
Outros gases (Argônio, Neônio, etc.)———- 0,94 % ≈ 9.400 ppm 1,0 % ≈ 10.000 ppm

Interpretação fisiológica:

  • O oxigênio inalado é consumido pelo organismo para processos metabólicos; parte dele é transferido para o sangue e utilizado pelas células.
  • O dióxido de carbono é um produto final do metabolismo celular e sua concentração aumenta no ar exalado.
  • O nitrogênio não participa diretamente das reações metabólicas, sendo considerado gas inertante no contexto respiratório.

Fisiologia Da Troca Gasosa

Pulmões e Alvéolos

A troca gasosa ocorre nos alvéolos pulmonares, onde:

  • O oxigênio (O₂) difunde-se do ar para o sangue.
  • O dióxido de carbono (CO₂) difunde do sangue para o ar alveolar.

Esse processo é essencial para manter a pressão parcial de O₂ e CO₂ em níveis compatíveis com o funcionamento celular.

Nitrogênio (N₂)

O nitrogênio constitui cerca de 78% do ar atmosférico. Ele atua praticamente como um gás inerte no organismo humano, não sendo metabolizado nem retido significantemente em condições normais de respiração à pressão ambiente.

Importância Do Entendimento Em Saúde Ocupacional

Os órgãos internacionais de saúde e segurança no trabalho (NIOSH e OSHA) e instituições nacionais (Fundacentro/MTE) enfatizam a importância de compreender a fisiologia respiratória como base para:

  • Avaliação de exposições a gases tóxicos ou asfixiantes;
  • Determinação de limites de exposição ocupacional (e.g., TLV, PEL, REL);
  • Implementação de proteção respiratória adequada;
  • Interpretação de sinais e sintomas precoces de intoxicação por gases.

Estudos contemporâneos de NIOSH e OSHA mostram que alterações na composição dos gases inalados/exalados, por presença de contaminantes, podem indicar:

  • Prejuízo da troca gasosa
  • Diminuição de oxigênio disponível
  • Aumento de gases tóxicos (CO, H₂S, NO₂ etc.)
  • Potencial risco à saúde e à vida

Limites de Referência Ocupacional

As principais organizações definem valores orientadores para exposição ocupacional a gases que se sobrepõem ao processo respiratório fisiológico.

OSHA (EUA)

  • O₂: não menos que 19,5% em ambientes de trabalho (defina atmosfera segura);
  • CO: PEL-TWA = 1 ppm;
  • H₂S: PEL-TWA = 10 ppm;
    (formulários disponíveis em normas 29 CFR 1910);

NIOSH (EUA)

  • CO: REL-TWA = 0,1 ppm;
  • O₂: níveis abaixo de 19,5% indicam atmosfera perigosa;
  • NH₃, NO₂, SO₂: exposições que impactam trocas gasosas podem causar disfunções respiratórias;

Fundacentro/MTE (Brasil)

  • Prioriza limites de tolerância e critérios de avaliação ambiental e biológica;
  • Enfatiza monitoramento contínuo em atmosferas com risco de alteração da composição gasosa do ar respirável;
  • Adota valores clínicos, epidemiológicos e de toxicidade atualizados.

Evidências Científicas Atuais

NIOSH

Os documentos técnicos mais recentes reforçam que:

  • Qualquer redução significativa de O₂ abaixo de 19,5% representa risco iminente ao trabalhador;
  • Exposições combinadas de gases tóxicos e hipóxia podem produzir efeitos sinergísticos;
  • Monitoramento contínuo dos gases respirados é uma medida preventiva crítica.

OSHA

OSHA destaca, em diversas diretrizes e normas (e.g., 29 CFR 1910):

  • Monitoramento do ar respirável em tempo real quando há risco de contaminação;
  • Importância de detectar concentrações de gases que alteram a composição normal do ar inalado;
  • A necessidade de sistemas de proteção respiratória confiáveis, adaptados aos riscos de cada gás presente.

Fundacentro / MTE

Publicações técnicas brasileiras evidenciam que:

  • A variação da composição respiratória é a base para interpretar edições de risco respiratório;
  • Exames biológicos (e.g., COHb para monóxido de carbono) são ferramentas complementares;
  • A fisiologia respiratória deve nortear a seleção e validação de equipamentos de proteção respiratória (EPR).

Relação Com Testes Biológicos

A composição dos gases exalados é utilizada também como indicador de:

Oxigenação tecidual
Capacidade de ventilação pulmonar
Presença de gases tóxicos no organismo

Exemplos de métricas clínicas:

  • COHb (carboxihemoglobina) — indica exposição ao CO
  • Saturação de O₂ — indicador de função respiratória
  • pCO₂ arterial — reflete eficiência da eliminação de CO₂

Esses parâmetros são frequentemente utilizados em:

✔ Avaliações médicas ocupacionais
✔ Programas de vigilância epidemiológica
✔ Decisões de afastamento ou retorno ao trabalho

Implicações Para Proteção Respiratória

Com base na compreensão da fisiologia respiratória e na disposição de gases:

Em atmosferas com oxigênio normal (≥ 19,5%)

  • É possível avaliar equipamentos filtrantes, desde que:
    • Não haja gases tóxicos em concentrações perigosas;
    • Não haja risco de asfixia.

Em atmosferas com oxigênio reduzido (< 19,5%)

  • Equipamentos filtrantes são insuficientes
  • É necessária proteção com ar respirável isolado:
    • Linha de ar mandado (supplied air)
    • SCBA (conjunto respiratório autônomo)
    • Sistemas com monitoramento contínuo (CO, O₂, outros gases)

Este entendimento está alinhado com:

  • NIOSH Criteria for a Recommended Standard
  • OSHA Respiratory Protection Standard (29 CFR 1910.134)
  • Fundacentro/MTE Programas de Proteção Respiratória